8.05.2017

A boa terra, Pearl S. Buck

No mês passado, li o livro A boa terra de Pearl S. Buck para o projecto #historiquices. Foi a minha estreia com esta autora, vencedora do Prémio Nobel em 1938, e gostei bastante. Vi também a adaptação de 1937, um filme que hoje em dia é um pouco polémico.


Este era um livro que eu já tinha há algum tempo na minha estante e, por isso, claro que aproveitei o projecto #historiquices para o finalmente ler. Foi a minha estreia com Pearl S. Buck e, sem dúvida, que quero ler mais livros da autora no futuro.

No reinado do último imperador da China, uma criada casa com um homem humilde. Juntos dão início a uma família e encetam uma viagem épica, envolvente e inesquecível. O-lan é uma criada na maior casa da aldeia. Quando casa com Wang Lung, um humilde agricultor, labuta arduamente pela sobrevivência da sua família. Ao princípio, as recompensas são poucas, mas o trabalho é fonte de esperança e há sustento na terra. Até a fome chegar e mudar a vida de todos.

A boa terra/Terra bendita foi publicado pela primeira vez em 1931 e venceu o pémio Pulitzer no ano seguinte. É um livro que narra, essencialmente, a história da vida de Wang Lung desde o seu casamento até à sua velhice, funcionando assim um pouco como uma saga familiar. 
Foi muito fácil me envolver nesta história e acompanhar as várias personagens através de várias dificuldades e injustiças. A história soa bastante real e para isso contribui a escrita de Pearl S. Buck que é bastante simples e directa. O livro explora problemáticas difíceis, tais como a fome e escravidão, de uma forma bastante sensível mas ao mesmo tempo crua e natural.


Gostei imenso de mergulhar na cultura e tradições chinesas, algo das quais sei pouco. É bastante visível ao ler este livro que a autora conhecia bem a China e a sua cultura. Os pais de Pearl Buck foram missionários na China rural quando ela era criança e ela acabou por viver e trabalhar muitos anos neste país. Achei também extremamente inteligente a forma subtil como a escritora entrelaçou a história familiar com a História da China. De facto, neste livro, é-nos apresentada uma China ainda bastante rural, que está à beira de importantes mudanças socio-culturais, mas estes acontecimentos políticos icónicos surgem apenas como pano de fundo uma vez que esta é a narrativa do ponto de vista de gente pobre. Gente que vive alheada das questões políticas que a rodeia e que se foca apenas na sua sobrevivência. Para eles, o importante, é a chuva, o cultivo e a necessidade de trabalhar para colocar comida na mesa. Como tal, a relação, quase religiosa, que Wang Lu tem com a terra é fulcral para a história e acaba por ser, no fundo, a mais importante do livro. Foi inevitável não pensar no E tudo o vento levou quando a Scarlett pensa que há esperança na sua vida enquanto tiver Tara.


Outro retrato importante no livro é o das mulheres. Como seria de esperar, esta é uma época em que as mulheres tinham de ser subservientes e eram consideradas seres inferiores. Ter uma filha era um mau sinal e vender filhas como escravas era normal. Enfim, é um retrato perturbador mais infelizmente muito verdadeiro e normal para a época. A nossa protagonista principal feminina é a O-Ian, uma antiga escrava e uma mulher estóica e trabalhadora, e é, sem dúvida, a personagem mais fascinante do livro que inspira muito respeito e admiração.


Concluindo, recomendo muito este livro para quem gosta de clássicos ricos, tanto a nível de enredo e retrato histórico-social como a nível de personagens. Ao que parece, este é o primeiro de uma trilogia. Acho que os restantes volumes não estão disponíveis em português. ★★★



Depois de ter lido o livro, resolvi ver a adaptação americana de 1937, um filme que recebeu na altura várias nomeações para os Óscares. Este é um filme bastante polémico hoje em dia porque os dois protagonistas da história não são interpretados por chineses mas sim por dois actores americanos caucasianos que foram caracterizados de modo a parecerem asiáticos para o filme. A escritora e o realizador queriam que todo o elenco fosse chinês mas tal foi impossível devido ao Código Hayes, um conjunto de regras de censura no cinema americano da altura. Mesmo assim, a maior parte do elenco secundário é chinês.

Confesso que é um pouquinho pertubador e ridículo em certos momentos a caracterização dos actores mas consigo aceitar que este filme é um produto do seu tempo e que, apesar disso, tem qualidade. O filme é relativamente fiel ao livro, especialmente no início. Existem alguns acontecimentos que se encontram condensados, o que faz sentido, e apenas a parte final é que acaba por ser mais diferente. Confesso que não gostei muito dessas alterações apesar de compreender que acabam por providenciar um fim mais emotivo e dramático. De facto, este filme é bastante melodramático e mais suave que o livro mas, no fundo, acaba  por resultar bem durante a maior parte da história.
Em termos técnicos, o filme encontra-se um pouco datado mas mesmo assim ainda possui algumas imagens e momentos bastante impressionantes. A parte da revolta na cidade e os momentos de fome acabam por ser os mais marcantes e a ruralidade da povoação e família também se encontra bem ilustrada.

As interpretações são boas mas não excelentes. É verdade que Luise Rainer ganhou o Óscar de Melhor Actriz por este papel mas a mim não me convenceu. Achei-a demasiado emotiva e artificial e acho que não captou bem a essência da personagem do livro. Gostei mais da interpretação do Paul Muni apesar de, por vezes, cair um pouco nos estereótipos.
Concluindo, gostei de ver esta adaptação mas acho que é um filme que só recomendo para quem gostou do livro ou gosta muito de clássicos do cinema. ★★★☆☆½




E vocês? Já leram o livro ou viram o filme?

4 comentários

  1. Tenho esse livro aqui em casa numa edição bem antiga, vou leva-lo comigo (para a minha casa onde trabalho) para ler qualquer dia!

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    1. Fazes bem :) Espero que gostes quando lhe deres uma oportunidade

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  2. Já sabes o que pensei do livro. Infelizmente não consegui ver o filme, mas o facto de ter actores caucasianos já é um contra, para mim. Mas se conseguir ver algum dia, vejo sim.
    Obrigada pela tua participação no meu projeto - é sempre uma mais-valia.

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    1. Ansiosa para ver a tua opinião :) Sim, apesar de o filme ser bom acho que já merecia uma adaptação mais adequada. De nada...é sempre um prazer participar! Bjs

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