1.31.2016

Adivinha quem vem jantar (1967)

interpretaçõesSidney Poitier, Katharine Houghton, Spencer Tracy, Katharine Hepburn 
DIRECTORStanley Kramer | ano: 1967 | nota7,4   

Para finalizar o mês aqui estou eu com a opinião do primeiro filme que eu e a Chris vimos para o nosso projecto conjunto - Pipocas | Óscares | Acção. Para quem não se lembra, este projecto consiste em todos os meses eu e a Chris escolhermos à sorte um ano entre 1934 e 2009; seguidamente ver quais os filmes que foram nomeados para Melhor Filme nesse ano e escolher um que nos agrada e que nenhuma de nós viu. Para Janeiro o ano sorteado foi 1968 e acabamos por escolher o Adivinha quem vem jantar, um drama que se debruça sobre um relacionamento interracial. 

No ano de 1968 celebrou-se a 40ª edição dos Óscares, referente aos filmes de 1967, e foram cinco os nomeados para Melhor Filme. 
Um deles foi o filme Bonnie e Clyde que retratou o famoso duo de assaltantes de bancos, interpretados aqui por Warren Beatty e Faye Dunaway. Foi um filme que na altura foi muito controverso (alguns odiaram, outros amaram) e foi sobretudo criticado pela sua violência gráfica; hoje em dia é considerado um grande filme. Este foi um que já vi há muitos anos atrás e que gostei na altura; preciso de rever. 
Outro filme nomeado foi o A primeira noite (The graduate) com Dustin Hoffman e Anne Bancroft; conta a história de um recém formado que é seduzido por uma mulher mais velha. Este, sem dúvida, que se tornou um filme extremamente bem difundido na cultura popular...quem não conhece a famosa frase "Mrs. Robinson, you're trying to seduce me. Aren't you?". Foi extremamente bem recebido nas bilheteiras na altura e continua a ser um filme bastante popular. Este é, sem dúvida, um filme que eu recomendo muito nem que seja pela cena final e excelente banda sonora de Simon & Garfunkel.


Depois temos o único filme que eu nunca vi da lista: o musical Doctor Dolittle com Rex Harrison. Este foi um daqueles filmes que não fez muito sucesso na altura (foi nomeado graças a pressão do estúdio) e ninguém se lembra dele actualmente. Acho que é mais conhecida a comédia mais recente com o Eddie Murphy.
Para finalizar temos o grande vencedor do prémio desse ano: o drama de mistério No calor da noite (In the heat of the night). Este foi um filme que eu vi o ano passado e gostei muito. Curiosamente, também aborda o tema do racismo e conta com Sidney Poitier no papel principal. Este conta-nos a história de um polícia negro que, sem querer, se vê envolvido numa investigação de assassinato numa pequena terra racista do sul da América. O filme vale sobretudo pela sua mensagem e pela excelente química e actuações de Sidney Poitier e Rod Steiger (que venceu o Óscar de Melhor Actor).


Passando agora ao filme escolhido, Adivinha quem vem jantar é um drama que apresenta, de um ponto de vista positivo e raro na altura, a relação entre um homem negro e uma mulher branca.

Realizado nos anos 60 por Stanley Kramer, em plena luta dos negros norte-americanos pelos seus direitos cívicos, conta a história de um casal branco (Katharine Hepburn e Spencer Tracy) a quem a filha anuncia que vai casar com um negro. O noivo (Sidney Poitier) é médico e vive na Suíça, mas apesar deste cartão de visita, os pais da rapariga entram em choque.

Eu ia com as altas expectativas para este filme tendo em conta a temática e a participação de dois actores que eu sabia serem óptimos actores: Sidney Poitier e Katharine Hepburn. Felizmente, o filme foi de encontro às minhas expectativas.
Essencialmente, a história do filme gira em torno das reacções das famílias dos dois apaixonados quando eles anunciam, de repente, que vão casar após se terem conhecido há cerca de 20 dias atrás. O final e resolução da história acabam por culminar no famoso jantar do título do filme entre as duas famílias. 


Vou começar então pela abordagem da temática principal do filme. Na altura, em plenos anos 60, o casamento interracial ainda era tabu para a maioria dos americanos e só recentemente tinha sido legalizado em todos os Estados do país. Sendo assim, era um tópico delicado e bastante pertinente que foi muito bem abordado no filme.
É interessante ver a forma como os vários elementos das famílias reagem à notícia. Todos inicialmente ficam em choque mas depois acabam por reagir de forma diferente. Temos as mães que, no fundo, acabam por ser as mais emocionais e sentimentais e temos os pais que são mais racionais, focando-se mais no seu preconceito ou nos problemas que sabem que os seus filhos terão de lidar ao ir para a frente com uma relação assim. 


O filme gira muito em torno da reacção dos pais da rapariga (Katharine Hepburn e Spencer Tracy) mostrando que até eles que sempre ensinaram à filha que todos são iguais e que são consideradas pessoas muito liberais têm dificuldades em aceitar o relacionamento da filha. Achei isto muito pertinente porque muitas vezes as pessoas apregoam ideais que depois acabam por ignorar quando o caso se torna pessoal. 
O filme também se foca muito no contraste entre o casal...se por um lado temos a personagem da Katharine Houghton que é uma pessoa extremamente alegre e despreocupada que não vê qualquer problema na situação e que quer apenas seguir o seu coração, temos por outro a personagem do Sidney Poitier que é mais velha e cautelosa e que se preocupa muito com a reacção das famílias. 
Sendo assim, temos uma diversidade grande de reacções e pontos de vista que enriquecem o filme. 


Um dos pontos mais positivos do filme é a qualidade de praticamente todas as interpretações
A maior surpresa de todas foi mesmo a interpretação de Spencer Tracy. Eu já conhecia o actor de nome pois a sua relação amorosa com a Katharine Hepburn é bastante conhecida; apesar do actor ser casado com outra mulher eles foram companheiros/amantes durante cerca de 25 anos. No entanto, este foi o primeiro filme que vi com o actor e adorei a sua interpretação; penso, sem dúvida, que é a melhor interpretação do filme. A química entre ele e a Katharine é palpável e o discurso final da personagem é bastante emotivo, não só pela mensagem em si mas também pelas circunstâncias reais em que decorreram. Foi o último filme do actor, que já estava doente na altura e que acabou por falecer antes do filme estrear, e é visível que as emoções e olhares trocados entre os actores são bastante reais.


Hepburn está óptima como sempre e Katharine Houghton surpreendeu pela sua vitalidade. Poitier convence sempre com a sua presença e carisma e, gostei sobretudo, de uma cena dramática e tensa que ele tem com o seu pai.


Para mim, o maior contra do filme é que ele acaba por se tornar um pouco repetitivo e arrastado uma vez que todo o filme é a exploração das reacções à notícia no espaço de um único dia. Outros pontos que não gostei tanto foi um cena de dança totalmente desnecessária que aparece pelo meio do filme e a interpretação da criada.

É assim um clássico que, não sendo extraordinário, é bastante sólido e que recomendo sobretudo pelas brilhantes interpretações e pela mensagem, que embora não tão aparentemente necessária hoje em dia, nunca é demais apresentar. É verdade que actualmente uma relação interracial já não devia ser motivo para tabu (e já não tem o impacto que tem no filme) mas infelizmente ainda existem muitas pessoas preconceituosas neste mundo.




E vocês? Já viram este filme ou algum dos nomeados de 1967?

Opinião da Chris aqui

1.30.2016

A Princesa e o Sapo


Hoje trago-vos uma publicação que se insere no projecto DisneyInUs criado pela Jaqueline do Blogue "Histórias Fantásticas". O objectivo deste projecto é todos os meses ver um filme da Disney e ler o conto/livro que lhe deu origem. Para o mês de Janeiro o seleccionado foi A princesa e o sapo, um filme de animação da Disney de 2009 e o conto base para o filme foi o O Príncipe Sapo dos irmãos Grimm. Eu não revi o filme porque já o vi algumas vezes mas acabei por reler o conto e hoje venho falar-vos de ambos. Irei dar pequenos spoilers para o conto mas não para o filme.


O Príncipe Sapo (The Frog Prince ou The Frog King em inglês) é um conto de fadas que se pensa que tenha sido registado pela primeira vez, na sua forma escrita, pelos irmãos Grimm. Actualmente, é um conto que faz parte integrante da maioria das suas colectâneas de contos, sendo geralmente o primeiro. Este é um conto bastante curto que conta essencialmente a história de um príncipe que foi transformado num sapo e que encontra uma princesa que consegue reverter o feitiço. E é na forma como o feitiço é quebrado que temos diversas variações do mesmo conto...

Eu li uma versão da história (e era a que eu lia em pequena também) em que a princesa promete ao sapo levá-lo para casa em troca de ajuda para recuperar a sua bola dourada. A princesa contudo tem nojo do sapo e tem dificuldades em cumprir a sua promessa e, só graças à insistência do pai, é que ela acaba por levar o príncipe para o quarto. Após três noite o feitiço é quebrado
Curiosamente, pelo que pesquisei, esta não é a versão original. Ao que parece no conto original a princesa não gosta nada que o sapo queira entrar na sua cama e, mesmo após insistência do pai, ela atira-o contra a parede:P Pensa-se que a história se tenha alterado quando o conto foi traduzido do alemão para o inglês...suponho que para agradar um público mais vasto. Mais recentemente, a versão mais conhecida é que em troca da ajuda para recuperar a bola o sapo pede um beijo à princesa; quando eles se beijam o feitiço é quebrado. Sem dúvida, que esta é a versão mais conhecida hoje em dia e a que está mais associada à cultura popular.

Na minha opinião, as três versões acabam por transmitir mensagens diferentes. A segunda versão pretende transmitir que devemos sempre cumprir as nossas promessas e a terceira, sem dúvida a versão mais romanceada de todas, transmite que as aparências iludem, que o importante não é o exterior. Confesso, no entanto, que a minha versão preferida é a primeira. Penso que esta versão pode querer transmitir que as raparigas não se devem submeter aos desejos dos homens (pais ou maridos) e devem seguir o seu coração. Há também quem diga que este conto simboliza a passagem da infância (criança a brincar com a bola) à vida adulta (vida de casada, em que a rapariga deixa um homem entrar no seu quarto). Realmente, é uma interpretação que faz sentido.

Concluindo, eu gostei de ler o conto. É um conto bastante pequeno que acaba por conquistar mais pelo seu simbolismo do que pela sua capacidade de entretenimento.


A Princesa e o Sapo é o 49º filme clássico de animação da Disney e foi lançado em 2009. Este foi o primeiro filme de animação da Disney a ter uma protagonista negra e foi também o último filme de animação do estúdio a ser feito na totalidade através de animação tradicional (desenho, sem recurso a computadores).
É baseado vagamente no conto acima mencionado. O filme decorre nos anos 20 em Nova Orleans e temos como protagonista a Tiana, uma crida que tem o sonho de um dia ter o seu próprio restaurante. Infelizmente, as coisas complicam-se quando ela se transforma num sapo após beijar outro sapo na tentativa de o ajudar a retomar a sua forma humana.

Eu vi este filme na altura que saiu, em 2009, e continua a ser um dos meus preferidos da Disney dos seus filmes de animação mais recentes. A animação é lindíssima e este filme é uma espécie de regresso à altura áurea da Disney em que o romance/conto de fadas musical era o rei (ex: Pequena Sereia, Alladin, Bela e o Monstro, etc..). Gosto do facto da Tiana não ser a nossa típica princesa, de ela ter um sonho e de lutar por ele. Aqui o sonho é mais do que isso...é uma meta, um objectivo para o qual ela trabalha. 

Tal como em muitos filmes da Disney, também aqui a família desempenha um papel muito importante e os laços entre a Tiana e o pai são enternecedores. Temos também outra relação que eu adoro: a relação de amizade entre a Tiana e a Charlotte. Elas têm personalidades diferentes, pertencem a estratos sociais diferentes mas entre elas há uma sincera e profunda amizade. É algo que também não se vê em todos os filmes de animação da Disney e por isso há que destacar. 


Além disso, o pano de fundo do filme é o Bayou, um cenário que acho sempre cativante e algo misterioso e que acho que é bem explorado no filme. 
O filme também tem muito sentido de humor. O príncipe Naveen é um bom vivant que adora música e diversão e temos também algumas personagens secundárias que funcionam bem como comic relief


Por fim, o meu ponto positivo vai para o vilão da história, o Dr. Facilier, que é um bruxo que pratica voodoo. Penso que é um vilão bastante subestimado pois existem cenas bastante creepy com ele e ele é super estiloso.


Mesmo assim, o filme não entraria para o meu top de filmes de animação preferidos da Disney. Penso que isto se deve essencialmente à música. Eu tenho uma relação de amor-ódio com jazz e há músicas que funcionam muito bem e outras que acabam por me irritar e aborrecer. É o que se verifica neste filme. Também, não sei porquê, não sinto uma química imensa entre o casal principal e por isso este não é daqueles pares pelos quais eu torço imenso. Acho que gosto mais da Tiana e do Naveen enquanto indivíduos do que enquanto casal. 


De qualquer modo, se são fãs de filmes de animação com histórias de encantar não deixem de ver este. Curiosamente, este é um dos filmes que prefiro ver em português do que em inglês.




E vocês? Já leram o conto ou viram o filme? 


1.29.2016

Esta semana foi assim #6

Mais uma semana que se passou e dentro de poucos dias estamos em Fevereiro! Como o tempo voa!
Esta semana foi bastante boa e marcada por alguns eventos, na área profissional e pessoal, que podem mudar um pouco o rumo da minha vida. Ainda não posso falar deles mas, basicamente, a partir desta semana vou andar ainda mais ocupada. Espero que no final o trabalho compense!

Uma novidade da semana foi que criei um grupo no facebook para o Sede de Infinito. O grupo é fechado mas se estiverem interessados em seguir o meu cantinho por lá basta pedirem para aderir e eu aceito. O objectivo é o grupo ser um local de partilha e convívio.


Quanto ao lazer...as coisas andam mais complicadas. Mesmo assim, consegui ver três filmes:)
Vi a minha escolha do mês para o projecto Musicais em 2016, o filme O Rei e eu (1956) e gostei muito. Tem algumas músicas que ficam mesmo no ouvido e adorei a interpretação do Yul Brynner. Vi também o filme de animação Anomalisa e, infelizmente, desiludiu-me um pouco. Em Fevereiro farei reviews dos dois filmes. Vi também o filme Mustang que foi um dos escolhidos do mês de Janeiro para o projecto #vejamaismulheres. Já fiz opinião e podem vê-la aqui.


Quanto a leituras, não tenho muito a acrescentar. Ando a ler o A Inquilina de Wildfell Hall...não tenho tido muito tempo para ler mas espero avançar bastante neste fim de semana. No entanto, gostei muito do que li até agora. A protagonista principal feminina promete;) Li ainda o conto A terrible strange bed, um conto de terror e mistério de Wilkie Collins. Apesar de ter adorado novamente a escrita do autor, desta vez a história não me convenceu.


Como foi a vossa semana?

1.28.2016

O novo ano de 2016


Hoje trago uma nova rubrica aqui do meu cantinho. Esta chama-se Café Virtual e é uma rubrica conjunta, com a Chris (@Diário da Chris). Todos os meses escolhemos um tema e cada uma de nós aborda-o à sua maneira, como se fosse uma conversa no café entre amigas. Para primeiro tema escolhemos o Ano de 2016.
Confesso que não sabia muito bem como abordar o tema uma vez que já vos falei dos desafios literários e cinematográficos para 2016. Acabei por decidir que ia falar um pouco com vocês porque é que eu gosto de me propor metas e desafios para cada novo ano.


A verdade é que existe muita gente que não gosta das famosas promessas de ano novo, que não fazem sentido, que são irreais, que o ano muda mas tudo se mantém na mesma. Eu não me encaixo muito nessa categoria. Eu sou uma eterna insatisfeita comigo mesma e com o mundo que me rodeia e, como tal, sinto sempre uma constante necessidade de alterar hábitos. Preciso de desafios que me mantenham motivada e de sentir que estou a caminhar para me tornar numa melhor pessoa (mesmo que isso nunca aconteça). Para além disso, eu sou uma completa viciada em listas e um ano novo é sempre um bom motivo para criar novas listas :D

E perguntam vocês: "e consegues cumprir todos as tuas metas e resoluções de ano novo?". Claro que não! Claro que, como toda a gente, tenho sempre metas mais irreais que outras. Por exemplo, todos os anos quero ser mais saudável e perder peso e, todos os anos, fracasso (pelo menos na maioria dos meses!). No entanto, sinto que vale sempre a pena tentar. Que vale muito mais a pena ir à luta e fracassar do que simplesmente me tornar apática e deixar o ano passar. No entanto, procuro sempre não me tornar uma obcecada com as novas resoluções e tento sempre relativizar as situações.

Essencialmente, gosto das resoluções de ano novo (e das outras também) porque ajudam a conhecer-me melhor, a ver o que funciona comigo e o que simplesmente nunca será uma parte importante da minha vida.




E vocês? Gostam de estabelecer metas em cada ano novo?


1.27.2016

Se isto é um homem, Primo Levi

Título: Se isto é um homem | Autor: Primo Levi
Editora: Colecção Mil folhas - Público | Ano de publicação: 1947 | Páginas: 190
★★★★★

Neste clássico da literatura contemporânea, Primo Levi dá um testemunho pungente de uma tragédia que afetou milhões de pessoas. Considerado o mais belo livro já escrito sobre a existência massacrada dos judeus deportados, É isto um homem? Não é, no entanto, um relato carregado de ódio e vingança. Desprovidos de saúde, os judeus nos campos de extermínio dificilmente poderiam ser identificados com os homens que eram antes da tragédia. Muito menos seus algozes sem rosto, senhores de escravos, mas sem vontade própria, num campo de morte onde ela, afinal, era o menor dos males.

Hoje é o Dia Internacional da Lembrança de Holocausto e, como tal, achei que seria adequado publicar hoje a minha opinião deste livro. Vai ser uma opinião curta e bastante básica! Não há muitas palavras que consigam expressar o quão importante e intenso é este livro.

Primo Levi foi um químico e escritor italiano que esteve preso no campo de concentração de Auschwitz durante mais de um ano e Se isto é um homem é, então, o relato da sua experiência enquanto prisioneiro. Neste livro, Levi descreve, na primeira pessoa, o que passou desde que foi capturado pela milícia fascista em Itália e deportado para o campo de concentração até à chegada das tropas russas.

Este é um relato cru, duro e deprimente das condições de vida dos prisioneiros e do que eles faziam para sobreviver. Acima de tudo, Levi foca-se na questão da humanidade; no quão cruel pode ser o Homem e quão profundamente foram aquelas pessoas desumanizadas, quão rapidamente perderam a sua identidade. O autor procurou não apenas registar as suas memórias mas reflectir também sobre a condição humana e, no fundo, dar a conhecer a natureza humana em situações extremas.


Acima de tudo, gostei do tom que o autor usou na sua escrita. Não se deixou levar por uma abordagem auto-comiserativa, optando sim por uma descrição objectiva e honesta da luta pela sobrevivência. O tema é pesado mas achei a leitura bastante fluida.

Concluindo, este é um livro incontornável para quem quer saber mais sobre a terrível experiência dos campos de concentração, num relato em primeira mão. Deixo-vos com um excerto do poema de abertura do livro que reflecte bastante bem o conteúdo do mesmo:

“Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
(...)
Recomendo-vos estas palavras
Esculpi-as no vosso coração”



Esta publicação faz parte da iniciativa especial Leituras do Holocausto



1.25.2016

O Feiticeiro e a Sombra (#1 Ciclo de Terramar), Ursula K Le Guin

Título: O Feiticeiro e a Sombra | Autor: Ursula K Le Guin
Editora: Penguin Books | Ano de publicação: 1968 | Páginas: cerca 200
★★★½


Ursula K Le Guin é uma figura incontornável na fantasia, e especialmente, na ficção científica e sempre achei que era uma grande falha minha nunca ter lido nada da autora. 
Finalmente, após tanto tempo estreei-me na autora! No início de Janeiro retirei um papelinho do meu TBR jar e o livro seleccionado foi o "The Earthsea quartet", a tetralogia de fantasia juvenil da autora. Hoje trago-vos a opinião do primeiro livro da tetralogia - O Feiticeiro e a Sombra.

Numa terra longínqua chamada Terramar vive o maior de todos os arquimagos. O seu nome é Gued, mas há muito tempo atrás, ele era um jovem chamado Gavião, um ser estranho, irrequieto e sedento de poder e sabedoria, que se tornou aprendiz de feiticeiro. Neste livro conta-se a história da sua iniciação no mundo da magia e dos desafios que teve que superar.

Tenho de começar por dizer que esta saga é considerada uma saga juvenil mas eu penso que também se adapta a um público adulto. No entanto, tenho de admitir que as falhas que eu encontro no livro estão muito associadas às características de um livro juvenil. Mas já lá irei...vamos começar pelos pontos positivos.

Este livro decorre num local imaginário chamado de Arquipélago, um local cheio de pessoas com culturas e aspecto muito diferentes, onde os feiticeiros têm sobretudo um papel de protecção e ajuda à população. Portanto, o local onde decorre a história é logo uma componente muito interessante mas, aquilo que ainda é mais empolgante, é o sistema de magia do livro. Aqui a magia reside essencialmente no poder das palavras pois só consegues controlar ou modificar as coisas e pessoas quando as sabes nomear verdadeiramente. É realmente um sistema de magia muito imaginativo e cativante. Além disso, também temos aqui uma academia de magia que acredito que tenha influenciado de algum modo a criação de Hogwarts pela J.K. Rowling.

Algo que apreciei também bastante no livro foi a jornada do nosso herói que foi tanta física como interior. Tipicamente, os nossos heróis juvenis são sempre bons e têm apenas que descobrir como utilizar o seu poder para destruir o mal. Aqui, o nosso herói é um jovem ambicioso e algo invejoso que vai ter de lidar com as consequências dos seus erros. Como tal, o livro consegue transmitir mensagens importantes ao longo da história de forma bastante natural e acessível.

Os meus últimos destaques positivos vão para a diversidade racial das personagens e prosa cuidada e algo lírica da autora.

Passando então aos pontos negativos. Essencialmente, o que eu senti foi que as aventuras foram pouco exploradas e que rapidamente os problemas que o protagonista enfrentava eram resolvidos. Gostava essencialmente que o mundo e a magia tivessem sido mais aprofundados. No entanto, tal como disse em cima, penso que este estilo narrativo é algo muito associado à literatura juvenil. Um livro de fantasia adulta teria investido mais no world building.

De qualquer modo, foi uma leitura muito agradável e que me entreteve bastante. Acho que foi uma boa introdução à autora e fico feliz por ainda existirem livros que decorrem neste mundo de fantasia para ler.


  Linked:

1 | Restantes livros da tetralogia Ciclo de Terramar
na prateleira/ler

2 | A mão esquerda da escuridão, Ursula K Le Guin (1969): a comprar/ler
3 | Os Despojados, Ursula K Le Guin (1974): volume 1 na prateleira; volume 2 a comprar /ler ambos


1.24.2016

The Diary of a teenage girl (2015) & Mustang (2015)

Hoje venho falar dos dois filmes de Janeiro para o projecto #veja mais mulheres (saiba mais aqui). Para iniciar este projecto resolvi começar por dois filmes que saíram no ano passado e que já queria ver há algum tempo. Ambos são filmes que abordam o que é crescer do ponto de vista de jovens raparigas - as chamadas histórias of coming of age.
Vamos então à minha opinião.


NOTA: 8,0 | Ano: 2015 | País origem: Turquia, França, Alemanha | [IMDB]
No início do verão em um vilarejo turco, Lale e suas 4 irmãs brincam de forma debochada com os meninos, o que acarreta em um escândalo de consequências muito fortes: a casa delas se torna praticamente uma prisão, elas aprendem a limpar ao invés de ir para a escola e seus casamentos começam a ser arranjados. As cinco não deixam de desejar a liberdade, e tentam resistir aos limites que lhes são impostos.
Há quem chame este filme do "As virgens suicidas" da Turquia e sem dúvida que consigo entender os paralelismos. Aqui temos cinco irmãs lindas, alegres e rebeldes que estão numa fase de procura de identidade e descoberta sexual que vai colidir com os valores conservadores da sua família e localidade. 
Tenho visto algumas críticas que dizem que o filme não retrata a actualidade da Turquia e que é fantasioso e tendencioso. Realmente, acredito que este filme não retrate a maioria da sociedade turca mas que tenha o objectivo de ser uma crítica mais abrangente a estas tradições, que continuam a prevalecer em certos locais e que "sufocam" as mulheres e a sua independência. Além disso, não senti que este filme tentasse ser um documentário fiel mas sim uma mistura de verdade e conto de fadas. E é essa qualidade quase onírica em certas passagens que tornam o filme mais marcante e bonito.

   

Adorei a banda sonora, realização e cinematografia bem como a relação entre as irmãs que me soou bastante autêntica. Gostei também da atmosfera de melancolia e injustiça que caracterizam o filme e de este conseguir misturar bem o humor com um tema tão negro.
Há apenas um aspecto do filme, que só me apercebi no final, e que penso que seria desnecessário introduzi-lo pois as mensagens transmitidas teriam à mesma um grande impacto sem esta faceta.


Esta é sem dúvida uma realizadora que quero manter debaixo de olho visto que me conquistou com o seu primeiro filme.


NOTA: 7,3 | Ano: 2015 | País origem: EUA | [IMDB]

Minnie Goetze é uma garota de 15 anos aspirante a artista de histórias em quadrinho, amadurecendo em plena década de 1970 em São Francisco. Insaciavelmente curiosa pelo mundo ao redor dela, Minnie é uma típica jovem adolescente. Exceto pelo fato de dormir com o namorado da mãe dela.

Este é também um filme sobre uma rapariga que se encontra numa fase de descoberta sexual mas numa sociedade e era bastante diferente (loucos anos 70). Antes de mais, é preciso avisar que este filme é sem dúvida para maiores de 18 anos pois possui cenas de sexo e nudez. 
Vamos começar então por abordar essa parte...este filme realmente tem cenas de sexo mas são cenas que fazem todo o sentido no contexto do filme uma vez que vamos acompanhando a evolução sexual da personagem principal que vai estar inevitavelmente associada a uma experiência de crescimento pessoal. Aliás, este é mais do que um filme sobre sexo...é um filme sobre a procura da identidade pessoal e as inseguranças associadas à adolescência. 
Gostei também de ver como a realizadora abordou a relação entre a menor e o adulto...o seu objectivo não é condenar a relação mas sim mostrar-nos o impacto que esta tem na vida e desenvolvimento da Minnie.

    

Acima de tudo, achei este filme divertido, provocador e bastante honesto. Foi refrescante ver um filme abordar com naturalidade e verdade o tema do sexo na adolescência e, ainda mais interessante, por este ter sido abordado do ponto de vista feminino, sem preconceitos.
Uma vez que a personagem quer ser uma artista vamos tendo também ao longo do filme alguns apontamentos artísticos, como os da imagem acima, que são extremamente imaginativos e bonitos.
Para mim o filme pecou só por se tornar um pouco repetitivo e, como tal, um pouco mais aborrecido em certas partes.


Mais uma realizadora a seguir.


Já viram algum destes filmes? Em Fevereiro trago mais dois filmes.



Créditos sinopses: AdoroCinema
Créditos imagens: Tumblr
Esta publicação faz parte do projecto Veja Mais Mulheres, criado pela Cláudia Oliveira.


1.19.2016

Realizadoras | 4 filmes vistos em 2015


Esta publicação serve para anunciar formalmente que vou participar no #veja mais mulheres - projecto cinematográfico da Cláudia (@mulher que ama os livros). O objectivo deste projecto é ver um filme por semana realizado por uma mulher. Contudo, ao contrário da Cláudia, eu não vou ver 52 filmes porque isso seria incompatível com os outros projectos cinematográficos que estou a realizar. Assim, vou aldrabar um pouco e o meu objectivo vai ser ver 2 filmes realizados por realizadoras por mês e fazer opinião aqui no blogue.

Para iniciar o projecto resolvi olhar para os cerca de 200 filmes que vi o ano passado e ver quantos deles foram realizados por mulheres. E a triste verdade é que (se não me escapou nenhum!) só 4 desses filmes foram realizados por mulheres!! No entanto, foram 4 filmes que eu gostei muito de ver e por isso venho recomendá-los. Aqui estão eles por ordem cronológica de lançamento:

Este foi o primeiro filme seleccionado pela Cláudia para começar o projecto #veja mais mulheres e, como tal, foi também o meu primeiro. E não podíamos ter começado de melhor maneira. Longe dela (Away from her) é um filme que aborda a temática da doença de Alzeimer, no impacto que esta pode ter nas relações entre um casal. É um filme lento, melancólico e ternurento. Não quero aprofundar muito a história mas posso dizer que esta segue um rumo que não esperava e que me agradou pois fez-me reflectir. Visualmente tem também paisagens e cenas bonitas. 


Uma outra educação (An education) era um filme que já estava nas minhas listas desde que foi lançado e finalmente este ano acabei finalmente por o ver. Este filme é protagonizado por Carey Mulligan que interpreta uma jovem de 16 anos, com uma paixão por cultura e tudo o que esteja relacionado com França, e que estuda muito para cumprir o desejo dos pais de ir para a faculdade. Contudo, as coisas mudam quando ela conhece David, um misterioso homem mais velho. Este é, sem dúvida, um filme feminista bem feito. As interpretações são óptimas e adorei acompanhar a viagem emocional da personagem principal. É um filme também muito apelativo pelo retrato da época (ex:guarda-roupa).


Eu tenho um fraquinho enorme por filmes de época e, por isso, desde que ouvi falar deste filme que o desejava ver. Belle é um filme baseado em factos reais e que conta a história de Belle, uma aristocrata filha de um almirante da Marinha e de uma mulher negra, durante a Inglaterra do séc. XVIII. É refrescante ver uma pessoa de cor no papel principal de um drama de época e a actriz, Gugu Mbatha-Raw, está muitíssimo bem. O filme é relativamente simples mas não deixa de ter uma mensagem histórica poderosa. Além disso, é um filme que flui bem e cuja história cativa. Se são fãs deste género de filmes não deixem de ver este.


E para último fica o meu preferido dos quatro. Babadook é um filme australiano que conta-nos a história de uma mãe viúva cujo filho sonha diariamente com um monstro terrível. Um dia encontram em casa um livro chamado "The Babadok" e Samuel reconhece imediatamente nele o monstro do seu pesadelo. Pouco a pouco Amelia começa a aperceber-se que o pesadelo do filho pode ser real.
Atenção! Vale muito a pena ver este filme mas tenham em mente que este não é um filme de terror de monstros mas sim um filme de terror psicológico com uma mensagem subliminar bastante poderosa. Essie Davis (que eu já adorava de Miss Fisher's murder mysteries) está espectacular no filme e o miudinho também está bastante bem. Adorei a atmosfera e foi uma lufada de ar fresco no meio de tantos medíocres filmes actuais de terror.



 E pronto...em breve trago a minha opinião sobre o primeiro filme que vi para o projecto.
Têm alguma sugestão?




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